Um verdadeiro registro do auge do Brasil Colônia, dentre atividades clericais e socioeconômicas, hábitos e costumes do século XVIII, está presente no Copiador de cartas particulares do senhor frei Manuel da Cruz, bispo do Maranhão e de Mariana (1739-1762). Recém-lançada pelas Edições do Senado Federal, a publicação apresenta ao público, pela primeira vez, a correspondência enviada por frei Manuel, composta por 382 peças escritas durante período economicamente importante de Minas Gerais, pertencente ao Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.

De acordo com o historiador Aldo Leoni, responsável pelas transcrições e revisões das cartas, o manuscrito se destaca em meio à valiosa documentação que o Museu possui. “Era uma prática comum que comerciantes, governantes, instituições ou qualquer pessoa que detivesse algum poder decisório guardassem uma memória das cartas que eram respondidas. Uma maneira de manter sempre à mão todos os assuntos tratados”, explica. Segundo Leoni, no caso específico de D. Frei Manuel da Cruz, é possível perceber, no decorrer dos 42 anos compreendidos pelo manuscrito, suas preocupações familiares e mais particulares vão perdendo lugar para a administração episcopal.

Informações pouco conhecidas sobre o governo de frei Manuel são relatadas na publicação, principalmente certa melancolia pela sua transferência de Maranhão para Mariana. “Pode-se pensar que a vinda para Mariana constituía uma promoção a um bispado mais rico, mas em termos estritamente religiosos, tratou-se de um rebaixamento no seu status hierárquico. São Luís, ao tempo, era filial da Catedral Patriarcal de Lisboa. Lá ele tratava diretamente com a máxima instância religiosa de Portugal”, avalia Leoni. Mais 37 documentos escritos por frei José da Santíssima Trindade, sexto bispo de Mariana, entre 1817 e 1822, foram acrescidos à compilação do historiador.

Vários foram os desafios na tentativa de transformar o material presente no acervo documental do Museu da Inconfidência em informação acessível à população. “A leitura, apesar de trechos extremamente comprometidos pela ação do tempo e dos insetos, não foi o mais trabalhoso. Essa dificuldade de leitura de textos centenários restringe o número de pessoas aptas a extrair todas as implicações que permeiam cada testemunho histórico. Arcaísmos fonéticos e palavras em desuso nos lembram a todo o momento que o documento foi produzido por uma pessoa que tinha valores e cultura diferentes dos nossos”. Para ajudar aos leitores com palavras que tiveram sentido alterado com a evolução da língua, tais termos foram reunidos e explicados. Pessoas e lugares citados no manuscrito também receberam pequena descrição. O resultado desse trabalho deverá aparecer em novo volume.

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Participantes da oficina “Museus: discursos, argumentos e sedução”, promovida pelo Sistema de Museus de Ouro Preto e museus de Mariana durante a edição 2009 do Festival de Inverno, estiveram presentes, durante toda a manhã desta terça-feira, 21, nas instalações do Inconfidência.

No auditório do Anexo I, o diretor da casa, Rui Mourão, proferiu palestra com o tema “O Novo Projeto Museográfico do Museu da Inconfidência”, ressaltando a história da instituição e o processo de formação do acervo, até a modernização realizada em 2006. Na sequência, todos seguiram para o interior do museu, onde foi realizada visita orientada com explanações do próprio diretor.

A oficina, que teve início na segunda-feira, 20, contemplará duas instituições por dia, até a próxima sexta-feira, 24. O objetivo é abordar os diversos aspectos envolvidos no planejamento, na organização e na execução de exposições de caráter museológico.

Será inaugurada na próxima sexta-feira, dia 17 de julho, às 20h30, na Sala Manoel da Costa Athaide, a exposição Contraponto, de Alex Gama. No Anexo I do Museu da Inconfidência, o artista apresenta uma versão planejada especialmente para Ouro Preto, a partir de algumas variações da mesma mostra em cartaz na cidade de Bruxelas desde julho de 2007.

Por meio de técnicas de xilogravura e fotografia digital, Gama apresenta o contraponto das formas de vida. “A dualidade de formas rígidas, como as gravuras. E as fotos, que têm lá seus meneios que a vida nos mostra, nos impõe”, explica. A própria dualidade das técnicas escolhidas é ressaltada no trabalho. “A gravura na sua essência, pura como o meio mais honesto de reprodução inventado pelo homem. No meu caso a xilogravura, que vem após as inscrições rupestres. E depois a fotografia digital, como recurso contemporâneo do dito homem moderno/tecnológico. Um olhar falso da realidade, que ao mesmo tempo recorre à natureza para observação da vida que se move a cada minuto, sobre a qual não temos a menor noção nem controle”, completa.

No material que será apresentado, o artista destaca a gravura intitulada “Trama XXXIII”, executada na Inglaterra e ainda pouco conhecida no Brasil. A obra pertence às coleções do Museu da Universidade de Essex, que possui coleção exclusiva de arte latino americana, e do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.

A exposição segue até 23 de agosto, na sala de exposições temporárias do Inconfidência, na rua Vereador Antônio pereira, 33, Centro. A visitação é gratuita e pode ser realizada de terça-feira a domingo, das 12h às 18h.
Convite Virtual - Contraponto